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Cultura

Segurança psicológica traz de volta os desvios que a equipe esconde

Quando falar dá medo, os pequenos desvios somem dos relatórios e o risco cresce em silêncio. Três gestos da liderança mudam isso.

Segurança psicológica traz de volta os desvios que a equipe esconde

Quando as pessoas têm medo de ser punidas, os pequenos desvios deixam de aparecer. Ninguém conta que tropeçou na escada sem corrimão, que a trava não segurou na primeira tentativa ou que fez a tarefa às pressas porque o turno estava desfalcado. O indicador melhora no papel enquanto o risco cresce na operação, e a liderança passa a comemorar um silêncio que deveria preocupá-la.

Sem segurança psicológica, o silêncio parece um bom indicador.

As pesquisas internacionais mostram o tamanho desse silêncio. O World Risk Poll, da Lloyd's Register Foundation, reuniu mais de 147 mil entrevistas em 142 países, conduzidas pelo Gallup em 2023, e concluiu, em publicação de outubro de 2024, que quase metade dos danos sofridos no trabalho (49%) não é reportada. Para quem gerencia segurança, isso quer dizer que boa parte do que machuca as pessoas fica fora do registro e, por isso, fora de qualquer análise.

O relatório de 2026 da Dräger sobre segurança psicológica, apresentado pelo British Safety Council em julho, ajuda a entender o mecanismo. Entre os entrevistados, 30% sentem que os erros aumentam porque as pessoas têm medo de falar, e 53% dizem que o clima econômico os deixa menos dispostos a levantar questões de segurança, o que faz sentido para quem teme pelo emprego. O mesmo levantamento traz um dado que aponta o caminho, já que 72% confiam que algo será feito se levantarem uma preocupação. A disposição para falar existe, e ela depende muito do que acontece depois que alguém fala.

Magnusson, citado no relatório, resume o problema numa frase que merece ir para a próxima reunião de liderança. Em tradução livre, ele diz que o silêncio não é conformidade, e sim risco não detectado. Uma área sem relatos não está necessariamente segura. Pode estar apenas calada.

Segurança psicológica não significa ausência de cobrança, e esse costuma ser o primeiro mal-entendido quando o tema chega às empresas. Equipes com segurança psicológica continuam sendo cobradas por resultado, por qualidade e por cumprimento de procedimento. A diferença está na confiança de que levantar a mão para apontar um problema será recebido como contribuição, e não como fraqueza ou deslealdade.

A pesquisadora Amy Edmondson observou, num estudo hoje clássico com equipes hospitalares, publicado em 1996 no Journal of Applied Behavioral Science, que as unidades com melhor liderança e melhor clima de equipe registravam mais erros, e interpretou o resultado como sinal de maior abertura para falar deles. Essa leitura muda a forma de olhar os indicadores. Um número alto de relatos pode indicar uma equipe que confia na liderança o bastante para contar o que viu, enquanto um número baixo pode indicar exatamente o contrário.

A segurança psicológica se constrói em gestos simples, repetidos com consistência. O primeiro é agradecer o reporte, inclusive quando ele traz uma notícia ruim ou expõe uma decisão da própria liderança. O segundo é investigar sem procurar culpados, buscando entender as condições que levaram ao desvio em vez de encontrar alguém para responsabilizar. O terceiro é voltar para a equipe com o que foi feito, porque sem esse retorno o reporte vira um formulário que some no sistema, e as pessoas param de preencher.

Esses gestos pesam mais quando vêm de quem tem influência sobre a carreira das pessoas. Um supervisor que agradece em público o operador que parou a tarefa, mesmo que a parada tenha atrasado a produção, ensina mais sobre segurança psicológica do que qualquer campanha. O contrário também ensina, e a equipe aprende depressa.

Para começar, revise como a sua área respondeu aos últimos dez relatos de quase acidente. Para cada um, verifique se quem reportou recebeu um agradecimento, se a análise olhou para as condições do trabalho e se a equipe ficou sabendo do que mudou. Onde a resposta for negativa, você encontrou o ponto em que o silêncio começa, e é por ali que vale começar a corrigir.

Fontes

  1. Is workplace safety training working? (World Risk Poll). Lloyd's Register Foundation, out. 2024.
  2. Psychological safety: exposing the intention gap. British Safety Council, 30/07/2026.
  3. Edmondson, A. C. Learning from mistakes is easier said than done: Group and organizational influences on the detection and correction of human error. Journal of Applied Behavioral Science, 32(1), 5–28, 1996.

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