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Acidentes sérios e fatais

Em dez anos a taxa de acidentes caiu, e em 2025 as mortes bateram recorde

Entre 2016 e 2025 a taxa de incidência caiu, e 2025 teve o maior número de mortes da série. Indicadores de frequência não enxergam o que mata.

Em dez anos a taxa de acidentes caiu, e em 2025 as mortes bateram recorde

O estudo “Acidentes do trabalho no Brasil – 2016 a 2025”, publicado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 2026, traz dois números que caminham em direções opostas. O ano de 2025 teve 806.011 acidentes e 3.644 mortes, o maior número de mortes de toda a série iniciada em 2016, e na década foram 27.486 trabalhadores mortos. No mesmo estudo, a taxa de incidência calculada a partir das CATs caiu de 29,39 em 2016 para 17,94 em 2025.

Uma taxa em queda não protege ninguém se os controles contra o que mata não estão no lugar.

O próprio MTE oferece uma pista para entender a contradição. Segundo o estudo, o avanço da formalização do trabalho não veio acompanhado de melhora proporcional nas condições de segurança. Uma leitura possível é que a taxa tenha recuado com a entrada de mais trabalhadores formais na base de cálculo, enquanto o número absoluto de pessoas que não voltaram para casa subiu.

Quem trabalha com segurança conhece esse alerta. Os indicadores de frequência somam todos os acidentes, e a maior parte deles é de baixa gravidade. Quando os acidentes leves diminuem, o indicador melhora, mesmo que os eventos capazes de matar continuem acontecendo no mesmo ritmo. A empresa comemora o gráfico e não percebe que o risco mais grave não se moveu.

Uma matéria da Universidade do Colorado em Boulder, de junho de 2025, sobre as pesquisas da Construction Safety Research Alliance (CSRA) no setor da construção, vai na mesma direção. O texto descreve que a TRIR, a taxa de lesões registráveis usada pela OSHA nos Estados Unidos, mostrou-se altamente aleatória e não prevê o desempenho futuro de segurança nem as fatalidades, e que a taxa de acidentes sérios e fatais, os SIF, permaneceu estagnada ao longo da última década. Elif Erkal, diretora associada de pesquisa e estratégia da CSRA, observa que a indústria costuma recorrer a essas taxas para afirmar que está segura (a fala está em tradução livre).

A explicação está nas fontes de energia. O corte superficial e a torção de tornozelo vêm de exposições frequentes e de baixa energia. A queda de altura, a carga suspensa e o equipamento energizado envolvem energia suficiente para matar e exigem controles próprios. O mesmo texto informa que cerca de 40% dos perigos de alta energia ainda não têm salvaguardas adequadas, e Erkal lembra que lesões de baixa gravidade acontecem por razões diferentes das de alta gravidade. Reduzir os acidentes leves não resolve esse grupo, porque os problemas são outros.

Segurança é sobre pessoas, e não sobre números. A frase não pede que se despreze os indicadores, e sim que se lembre para que eles servem. Um número só é útil quando ajuda a proteger alguém, e uma taxa que cai enquanto as mortes chegam ao maior valor da série conta uma história incompleta. Quando a meta principal da organização é reduzir a taxa, ela tende a aprender a cuidar da taxa.

Prevenir SIF pede olhar para os precursores. Um quase acidente com uma carga suspensa que passou perto de uma pessoa diz mais sobre o risco de morte do que dezenas de cortes leves, e precisa ser tratado com a mesma seriedade de um acidente grave, ainda que ninguém tenha se machucado. Para cada atividade de alta energia, a pergunta central é se existe um controle capaz de proteger a pessoa mesmo quando alguém erra, e se esse controle está funcionando hoje.

Isso muda também o que a liderança acompanha. Além da taxa de frequência, vale levar às reuniões de resultado quantas atividades de alta energia tiveram seus controles verificados em campo, quantos eventos com potencial de lesão grave ou fatal foram investigados e quantas ações desses eventos foram de fato concluídas.

Na próxima reunião mensal de segurança, separe os eventos com potencial de SIF dos demais e apresente esses primeiro, independentemente do resultado que tiveram. Depois, escolha as três tarefas de maior energia da unidade e vá a campo, com quem as executa, verificar se o controle existe, se funciona e se está sendo usado. Cada controle ausente ou improvisado que aparecer nessa verificação entra na pauta da reunião seguinte com responsável e prazo, antes de qualquer discussão sobre a taxa.

Fontes

  1. Acidentes do trabalho no Brasil – 2016 a 2025. Ministério do Trabalho e Emprego, 2026.
  2. Life-saving mission (Construction Safety Research Alliance). University of Colorado Boulder, 06/06/2025.

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