Pular para o conteúdo
Saúde

Quem mais se acidenta no Brasil trabalha em hospital

O técnico de enfermagem é a ocupação com mais acidentes de trabalho no Brasil. O dado pede outro olhar sobre percepção de risco, EPI e cuidado ativo.

Quem mais se acidenta no Brasil trabalha em hospital

Quando se pensa nos trabalhadores mais expostos a acidentes no Brasil, a imagem que costuma vir é a da obra, da mina ou da indústria pesada. O estudo “Acidentes do trabalho no Brasil – 2016 a 2025”, publicado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 2026, mostra outra coisa. A ocupação com mais acidentes na década é a de técnico de enfermagem, com 372.092 registros, e o atendimento hospitalar (500.032 registros) e o de urgência (133.446) somam cerca de 633 mil acidentes no período.

Quem passa o turno cuidando dos outros também precisa de alguém cuidando dele.

Vale separar os dois rankings do estudo. Quando o critério é morte, o trabalhador mais atingido é o motorista de caminhão. Quando o critério é número de acidentes, o hospital aparece na frente. São riscos de natureza diferente, e os dois pedem atenção, mas o volume de acidentes no hospital costuma receber menos atenção do que o tamanho dele justificaria.

Parte da explicação está na familiaridade. No hospital, o risco faz parte da rotina, seja na agulha que precisa ser descartada, no paciente que precisa ser levantado da cama, no produto químico usado na limpeza ou no contato com material biológico. Quando o perigo está presente o tempo todo, ele deixa de ser percebido como perigo, e a pressa do atendimento, com o paciente que piora ou o plantão desfalcado, faz o restante.

O estudo traz outro dado que merece leitura atenta. Os acidentes com mulheres cresceram 48% no período, de 198.144 em 2016 para 293.204 em 2025, e elas respondem por 34,2% do total da década. O recorte não explica sozinho quanto desse crescimento vem da saúde, e não convém tirar conclusões além do que os números mostram, mas é um sinal de que as condições de trabalho das mulheres precisam aparecer com mais clareza nas análises de risco.

O EPI tem um papel curioso nesse ambiente. No hospital, ele está por toda parte, com luvas, máscaras e aventais disponíveis em praticamente todos os setores, e mesmo assim os acidentes acontecem. A razão é que o EPI é a última barreira e não deveria ser a principal. Uma luva não impede a perfuração quando o coletor de perfurocortantes está longe do leito, nem protege a coluna quando falta gente para mover o paciente. O treinamento de EPI precisa incluir ajuste, conservação e uso correto, e precisa vir acompanhado de uma pergunta sobre o que mais está sendo feito para que o risco nem chegue até ele.

Há ainda uma ligação entre o cuidado com o profissional e o cuidado com o paciente. A 11ª meta-análise Q12 do Gallup, de 2024, encontrou uma diferença mediana de 58% em incidentes de segurança do paciente e de 63% em incidentes de segurança entre as unidades mais e menos engajadas. O dado mostra uma associação, e não uma relação de causa, mas indica que a segurança de quem cuida e a de quem é cuidado costumam andar juntas.

Aqui entra o cuidado ativo. Em um ambiente de cuidado, as pessoas precisam se sentir à vontade para avisar o colega que está reencapando a agulha, para oferecer ajuda na transferência de um paciente pesado e para dizer à coordenação que o plantão não fecha com aquela escala. Esse cuidado entre colegas não acontece por decreto. Ele depende de lideranças de enfermagem que tratem o acidente com o profissional com a mesma seriedade dedicada a um evento adverso com o paciente.

Para o profissional de SSMA que atua em hospital, uma ação prática é cruzar as CATs do último ano por tarefa e por turno e identificar as três situações mais frequentes. Depois, vá até o setor e observe, junto com a equipe, como essas tarefas são feitas de verdade, verificando se o EPI disponível em cada turno é o adequado e se o coletor, o equipamento de transferência ou o reforço de pessoal estão onde precisam estar.

Fontes

  1. Acidentes do trabalho no Brasil – 2016 a 2025. Ministério do Trabalho e Emprego, 2026.
  2. Gallup Q12 Meta-Analysis Report (11ª edição). Gallup, 2024.

Todas as notícias

Leve a cultura de segurança para toda a sua equipe

Licenças por CNPJ, painel com o progresso de cada pessoa, login com a conta corporativa, certificado e selo digital.

Assine a newsletter e receba as novidades da Escola da Segurança

Ao assinar, você concorda em receber e-mails da Escola da Segurança com novidades, cursos e conteúdos. Seus dados seguem a Política de Privacidade. Cancele quando quiser, em 1 clique.